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Este Natal escolhi um guião e o piano de Sakamoto

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 15.12.11

Este Natal escolhi um filme que em si não é uma obra de arte, nem sequer um filme virtuoso em termos de linguagem do cinema, mas tem um guião com imensas potencialidades, um guião assim podia pertencer a uma obra-prima, e tem personagens fabulosas bem defendidas pelos actores.

Como muitos filmes americanos das décadas mais recentes, segue determinados clichés na sua rota, refiro-me à própria questão da construção das personagens, são personagens-tipo para o bem e para o mal, e também ao desenvolvimento do guião a partir do primeiro terço do filme.

E há a questão da solução final para os encontros e dilemas, e a questão da banda sonora, mas disso podemos tratar já, será o piano de Sakamoto (o que tenho ouvido ultimamente): “Aqua”, “Koko”, “Amore”.

 

Se quisermos pensar em Natal este filme tem lá tudo: a futura mãe, uma mãe muito jovem e vulnerável, a esperança da vida esse milagre maior, a disponibilidade da sua natureza benéfica a reflectir-se na disponibilidade de desconhecidos que com ela se cruzam.

Este guião surpreende pela sua enorme força inicial: uma rapariguinha é abandonada pelo namorado no Wal-Mart. Daí para a frente constrói as rotinas da sobrevivência para si e para a bébé que vai nascer. Mas não estará sozinha.

Perguntamo-nos se isto é verosímil, defendo que sim, que é verosímil na sua simplicidade e complexidade, isto acontece na vida real. Porquê? Porque esta rapariguinha representa todas as pessoas aparentemente frágeis mas terrivelmente fortes na sua tranquilidade e constância, na sua natureza amorosa. Muitas vezes são presas fáceis de gente sem escrúpulos, isso também é verdade, mas muitas outras vezes recebem de volta o amor que expandem. Esta é para mim a melhor aproximação possível do espírito do Natal: esta disponibilidade afável e amorosa.

 

Aqui as mulheres são-nos apresentadas numa certa diversidade de tipos e na sua força e fragilidade, cometem erros e voltam a recompor-se, desde a alcoólatra generosa à mãe solteira vítima de predadores sexuais, passando por esta rapariguinha que descobre na fotografia (o registo da vida) a sua expressão no mundo.

Os homens aqui também na sua variação possível, do pior ao melhor, e com a possibilidade de redenção final mas após terem estragado tudo (no caso do namorado).

 

Procurem rever este filme sem preconceitos cinematográficos ou outros e terão uma agradável surpresa. Natalie Portman está perfeita aqui…

 


 

 

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publicado às 17:12

Razões que a razão desconhece - 1

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 18.05.10

 

Waterworld é um dos meus filmes preferidos. Recebeu nos States vários prémios Razzie e tudo, para pior realizador (Kevin Reynolds), piores produtores (Kevin Costner e mais dois), piores actores (de novo Kevin Costner e Dennis Hopper). Sim, aqui surge o terceiro Kevin Costner a navegar...

 

O que é que eu vi neste filme que os americanos em geral não viram? Talvez isso fique mais claro quando referir o que me fascinou no filme:

- Há uma utopia sempre presente: chegar a terrra firme. Mesmo não sabendo se ainda existe, nalgum lugar do planeta (e aqui lembro-me de Frank Capra, Lost Horizons).

- Há mutantes, na adaptação à vida aquática adquirem qualidades "anfíbias" digamos assim, Kevin Costner é um deles. Esta ideia é fascinante, pelo menos para mim.

- Há uma divisão clara entre os terrestres e os mutantes, tal como hoje vemos divisões entre diversas culturas, divergências de percepção e de consciência. E, no entanto, essas divergências são ultrapassadas na comunicação, quando passam da simples motivação de sobrevivência para a empatia, a cumplicidade.

- A resposta da localização da terra firme está gravada nas costas de uma miúda. Que não é uma miúda qualquer, é inteligente, corajosa, e fala muito. Fala demais, segundo o nosso herói mutante.

- Todos os vilões são excessivos e convincentes, num prolongamento natural dos gangs urbanos, piratas sem lei, consumidores de combustível para as suas deslocações de vândalos destrutivos. Aqui não percebo porque é que os americanos não aderiram ao filme. Há piruetas de motas aquáticas, em rampas espectaculares, as construções aquáticas são alíás muito bem concebidas. Até para mim, que não aprecio as proezas dos duplos, fiquei presa àquelas cenas...

 

O filme projecta-nos no futuro, e eu sempre gostei de filmes assim. Não os classifico na ficção científica, mas numa simples projecção temporal. O que é que torna estes filmes tão fascinantes? E estou a pensar no 1984, Blade Runner, no Postman, no War Inc., ... Porque é uma forma muito interessante de nos revelar os tempos actuais, para que vida e mundo estamos a caminhar actualmente, como uma corrente de um rio onde navegamos sem ter disso consciência... É esse o seu fascínio para mim.

Por isso procuro sempre o verosímil nestes filmes. Se não forem verosímeis, credíveis, não me interessam para nada. Os meus neurónios inquietos já produziram fantasias q.b. e já as procuraram no tempo da idade impressionável, agora querem ver por detrás da realidade, querem perceber. E claro que há coisas que não nos são acessíveis pelos neurónios. As tais razões que a razão desconhece. Talvez subterrâneas ou subaquáticas, ou ligadas a uma consciência colectiva que se perpetua ao longo de gerações, e de que não nos apercebemos.

 

O que é que Waterworld nos revela? Uma possibilidade, um resultado possível. A destruição do mundo como o conhecemos, da civilização como a conhecemos, do cenário, da natureza, do habitat natural de um terrestre. Há um pormenor muito significativo: nem tudo é destruído, a natureza humana mantém-se no essencial, no valor que dá à vida apesar de vermos como está desvalorizada e descaracterizada, aqui tudo se compra e tudo se vende, o nosso mutante troca a rapariga por um bocado de papel (uma raridade, uma pista possível). O perigo espreita a toda a hora, torna-os vigilantes e sempre inseguros. No mar não há fronteiras, mas também não há um lugar seguro ou tranquilo.

Não vou desvendar o final, para não estragar o filme a quem não o viu, embora a tentação seja enorme! Mas como me surpreendeu este final, favoravelmente diga-se de passagem, mais uma razão para não o contar aqui.

 

Não me admirava nada que este filme, tão mal-amado pelos americanos, se venha a tornar um filme de culto. Dizer que Kevin Costner e Dennis Hopper representaram mal o seu papel é não perceber nada das suas personagens e de como lhes iriam vestir a pele. O que explica certas aberrações e mediocridades que vemos aplaudidas pelo sistema, incluindo nos Óscares. Independentemente da mensagem ser válida ou não, estamos a falar de cinema? Desconfio que a maioria de produtos vendidos como cinema americano não são mais do que pacotes plastificados montados a partir das eternas receitas pré-formatadas, em que o bom gosto se ausentou por tempo indeterminado. Os clichés já entediam o olhar e a inteligência massacrada, por demais previsíveis, mas é essa a marca que vende, ou que nos é impingida.

 

Este rio continua a navegar, atento às correntes e aos remoinhos, mas mais preguiçoso do que é costume... Vou parando nas suas margens e essas paragens estão a tornar-se mais prolongadas, é só isso...

 

 

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publicado às 11:01

"Tirania está mal escrito..."

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 02.04.10

 

Tirania está mal escrito, dito pelo tirano, é a line mais paradoxal do filme The Postman. O General Bethlehem que pensa dominar todo o território, descobre a rebeldia em simples folhetos. A raiva da descoberta do impensável até esse dia, leva-o a retaliar em diversas aldeias indefesas. Mas o movimento da liberdade e da esperança já se tinha iniciado e já não iria parar.

E pensar que esta aventura se iniciara da forma mais casual. Bem, não tão casual assim... Afinal, a liberdade e a esperança estão inscritas nos genes humanos. E mais ainda na alma americana, mas isso já é outra história...

 

Bem, vamos fazer rewind e começar do princípio: estamos em 2013, no pós-guerra total, que deixou a América, e talvez o mundo, numa Idade Média reeditada: voltou-se ao cavalo como meio de transporte, e às lanternas de gás e às fogueiras. Os carros apodrecem pelos caminhos desertos ou nas aldeias onde as pessoas se agruparam. Só as armas dos bandos armados ainda funcionam, ou não fosse o lado bélico outro dos genes humanos... Um desses bandos armados, talvez o mais forte, é liderado pelo General Bethlehem, que utiliza a violência da forma mais arbitrária, perversa e cruel.

 

 

Um intervalo aqui, retomo o fio à meada amanhã, se não se importam. Mas quis já aqui deixar o filme que escolhi nesta Páscoa. E já irão perceber porquê...

  

O nosso herói, futuro homem dos correios (não gosto muito da palavra carteiro), é apanhado pelo bando do General Bethlehem e obrigado a aderir ao clã e a prova é uma marca no braço. Estes soldados são autênticos escravos, nada mais, sujeitos à sede de violência de um General demente. Há nele um prazer em humilhar os mais fracos. Para provar a sua liderança inquestionável, submete-os às humilhações mais incríveis e a uma vida de terror, com jogos absurdos. Mata sem quaisquer escrúpulos, e pior!, sem qualquer critério. Mata porque sim, porque lhe apeteceu, porque os quer ver completamente dominados pelo medo. Nele há também uma erudição adquirida à pressa, debita de vez em quando uma ou outra frase de Shakespeare que deixa os homens perplexos.

O General desconfia que o nosso herói sabe mais do que o que revela saber, que é diferente dos restantes combatentes. Desafia-o um dia a citar Shakespeare. O nosso herói percebe que para sobreviver àquele clã terá de provar que é ignorante e cobarde. Mas será a citar Shakespeare que fica na mira do General. Terá, assim, de provar que é um cobarde, nada interessado em lutas ou lideranças. Aceita os golpes do General sem ripostar e promete a si próprio que irá escapar dali o mais depressa possível.

Há pessoas que nunca se submetem à escravidão. E, mesmo presas, tudo farão para se libertar. Enquanto não o conseguem concretizar fisicamente, ou geograficamente, escapam para um mundo só seu. O nosso herói sonha com um lugar, Saint Rose. Mesmo que lhe digam que não existe, ele está seguro, seguríssimo, que um dia chegará a Saint Rose.

 

Muitas peripécias o esperam nessa aventura maior de se libertar da escravidão. Desde a traição de um dos companheiros mais chegados à quase traição de um outro. Mas consegue. Digamos que a sorte o acompanhou. Até a noite, a chuva e o frio o deixarem completamente exausto. É a tremer que entra num jipe abandonado e descobre, à luz de um isqueiro, que o seu habitante, já esqueleto, era um homem dos correios. Com uniforme e tudo. E descobre ainda o saco da correspondência, com cartas lá dentro, cartas com destinatário mas que não chegaram ao destino. Fica ali a lê-las. De manhã, já é um outro homem que sai do jipe. De uniforme e um novo ânimo. Já não é apenas um fugitivo, tem uma função, levar as cartas ao seu destino.

 

Os correios funcionam aqui como o símbolo perfeito da sobrevivência das pequenas comunidades espalhadas e isoladas, e da resistência possível à violência dos bandos armados. Os correios como símbolo dessa sobrevivência e resistência, pois permitem uma ligação territorial, uma unidade territorial, são aqui um elemento muito inteligente e original da história e do filme.

Quando tudo parece perdido, as pessoas isoladas nos seus refúgios, e vulneráveis à pilhagem dos bandos armados, surge este elo de ligação, e tudo começa ali, naquele homem dos correios, vestido com o uniforme, e a contrariar todas as notícias, todas as evidências, da destruição total da América como país organizado, com um Presidente e um governo. Isto é genial. Genial. E funciona muito bem no filme.  

 

 

Um novo intervalo, para retomar o raciocínio... Ainda gostaria de evidenciar o papel de um miúdo voluntarioso, o animado Ford Lincoln Mercury, que mudara de nome porque este ligava melhor com a condução de carros. Esta personagem é uma das peças-chave da história. Mas já me adiantei à história.

 

O primeiro teste ao seu novo papel não foi propriamente fácil. A aldeia protege-se como pode, à maneira dos antigos fortes americanos do far west quando conquistavam o território aos seus habitantes originais. A protecção é uma muralha improvisada, com troncos de árvores. O Sheriff de Pineview é o mais reticente possível à sua entrada na aldeia. O nosso herói bem tenta mostrar-lhe que representa o governo e que as comunicações e o funcionamento dos correios tinham sido restabelecidos, mas o Sheriff é um homem céptico. Só com o impacto da leitura de uma carta, último recurso criativo do nosso homem dos correios, num destinatário que responde no meio da multidão expectante, é que lhe abrem o portão. A mulher, apoiada pela filha, adquire uma nova vida, a carta mostrava-lhe que alguém da sua família sobrevivera à guerra. E a magia começa ali. Recebem-no como a um hóspede desejado, dão-lhe jantar, e ainda haverá baile. E também há uma rapariga, e que até é uma rapariga muito voluntariosa, além de muito bonita, diga-se de passagem. Mas terão de ver o filme, porque eu vou-me concentrar na mensagem que me inspirou.

Recebem-no, pois, como um hóspede, disse ali atrás. Todos, não. O Sheriff mantém o cepticismo, não esquecer que é o responsável por aquela população, e dá-lhe o prazo dessa noite para se ir embora dali.

 

E agora, sim, temos esse encontro mágico do nosso herói com o posto dos correios, uma pequena casa abandonada. Já lá dentro vê o lema dos homens dos correios, gravado nas traves que ligam as paredes ao teto... faça sol, chuva, intempéries, nada detém os homens dos correios na entrega das cartas... qualquer coisa assim. E é aqui que se estabelece o diálogo mais interessante do filme: o rapaz, de que já aqui falei, o Ford Lincoln Mercury, desistira do sonho de conduzir carros (isso é para crianças) e quer tornar-se igualmente um homem dos correios. É-lhe dito que só um outro o pode nomear. Terá de erguer a mão direita e prestar juramento. E qual é o juramento? O nosso herói vai-lhe dando o lema gravado na trave. É uma das cenas mais conseguidas do filme. Aqui ainda não o sabemos, mas o rapaz revelar-se-á muito mais convicto e impetuoso no seu novo papel do que o original, e não é por ser mais jovem. É essa a sua natureza. 

 

Outra cena comovente: a despedida, nessa manhã, a aldeia em peso a vê-lo partir, já transportando mais cartas que lhe tinham deixado à porta. Mas já vai a cavalo, um presente da população. As pessoas trauteiam o hino enquanto ele se afasta (espero não estar a confundir a cena). O Sheriff revela-lhe ainda não estar convencido da sua autenticidade. O homem dos correios responde-lhe que só o poderá confirmar se ele voltar com uma carta. O Sheriff aproxima-se então a cavalo, já na estrada poeirenta, e dá-lhe uma carta. O filme tem cenas assim...

 

 

A aventura começara. A esperança é contagiosa. Anima. E todos se dispõem a pagar o preço pela liberdade, mesmo que seja o mais elevado possível, a própria vida.

Quando o nosso herói regressa, com as cartas que tiveram resposta, entre elas a do Sheriff, fecha-se esse círculo, a comunicação restabelecera-se. E reforça-se a esperança, pode ser que até talvez haja mesmo um governo e que o Presidente diga mesmo aquela frase, tudo vai correr bem...

Nesse regresso, será ainda surpreendido pela nomeação de novos homens dos correios, todos muito jovens, excepto um, sexagenário, especialista em comunicações. Ford Lincoln Mercury não tinha perdido tempo. E acrescentara ao lema, defender as cartas com a vida se preciso fosse. 

Todo o filme respira esse amor pela liberdade, como condição-base da dignidade de cada indivíduo. Como única forma de vida digna de ser vivida.

É assim que irão enfrentar o General Bethlehem, primeiro com os folhetos da rebelião, contra a tirania, folhetos que deixarão o General furioso e que o levam a dizer a line que dá o título a este post. A retaliação começa, contra as populações e contra os novos homens dos correios. A morte de quatro jovens levará o nosso herói a pegar no Ford Lincoln Mercury pelos colarinhos, os homens são mais importantes do que as cartas. Mas já nada os demove, todos tinham percebido a importância da sua missão, restabelecer a comunicação, unir as aldeias oprimidas.

 

Outra cena comovente: o General manda queimar a bandeira americana orgulhosamente hasteada  no posto dos correios. E depois atear o fogo ao próprio posto. Vemos os rostos tristes de toda a população. A bandeira como símbolo da unidade e da liberdade. Isto é muito americano, e é mais do que orgulho ou veneração, é afecto genuíno.

A liberdade dá imenso trabalho e exige vigilância constante. Não parece, mas é assim. O impulso totalitário também está inscrito nos genes humanos. Os tiranos, embora sejam menos em número, são mais fortes, porque são imunes à consciência, esse travão natural, e à empatia, que permite respeitar o próximo. Estão a ver o dilema? Nunca está concluída esta demanda. Nunca.

O nosso herói ainda terá de demonstrar valentia perante o clã. Uma trabalheira... mas no final, haverá um intervalo para amar e para segurar nos braços uma criança: É uma menina... diz-lhe ela. Chama-se Hope... Querem melhor fim para um filme?

Bem, não foi esse o entendimento de Kevin Costner que o projectou trinta anos para a frente, e essa é que é a cena final.

 

Este é o segundo Kevin Costner, como actor, a navegar aqui neste rio, mas o primeiro como realizador. Dele como actor, gostei muito do seu Eliot Ness n' Os Intocáveis, do seu Ray Kinsella no Campo de Sonhos, e do seu Jim Garrison no JFK. Mas talvez o seu papel tenha sido mesmo o Lieutenant Dunbar no Danças com Lobos.

 

 

 

Coincidência interessante: Saiu este mês um livro de Charles Bukowski, Correios (editora Antígona), que o apresenta assim: " Correios, o primeiro romance de Bukowski, é baseado na sua experiência como empregado dos Serviços Postais dos Estados Unidos ao longo de uma década, e foi publicado num momento em que o seu nome ascendia ao plano do reconhecimento literário universal.
Ponto de partida ideal para qualquer leitor que se queira iniciar na prolífica obra de Bukowski, encontramos em Correios as qualidades dos seus restantes trabalhos. Repleto de cenas hilariantes, este romance é também um retrato fiel das frustrações de um funcionário público sofredor.
As suas personagens, entre a ficção e a realidade, captam a essência e a universalidade do ser humano e nós, leitores, continuaremos a topar, em Bukowski, com bebedeiras, mulheres, zaragatas, eventuais rebates de consciência, enfim, com os trambolhões da vida."

 

 

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publicado às 02:25

A loucura inevitável e a cura possível

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 16.01.10

 

No meu tempo da faculdade em Coimbra fomos várias vezes ao cinema rever alguns filmes: Voando Sobre um Ninho de Cucos, A Laranja Mecânica, O meu Tio da América. O objectivo: identificar algumas técnicas terapêuticas e perceber como funcionavam algumas instituições psiquiátricas.

De todos os filmes sobre a loucura e as clínicas psiquiátricas o mais perturbador para mim tinha sido Lilith de Robert Rossen, com Warren Beatty e Jean Seberg. Penso até e julgo não estar muito errada, que os anos 50 e 60 terão sido os que mais aprofundaram a loucura e o processo doloroso e solitário da cura possível ou da sua impossibilidade.

Mas nenhum dos filmes que alguma vez vi me preparou para este Adam Resurrectede esta clínica no meio de um deserto em Israel.

 

Como se sobrevive ao maior horror? À morte da família? À maior humilhação possível, impensável?

Através da loucura, a única possibilidade, até ser capaz de matar todos os fantasmas que o habitam, um a um. Até ser capaz de gritar para o céu, Porquê? Porquê?

 

Adam, um ex-grande empresário do circo em Berlim, megalómano, excessivo, rico e adorado pelo público, vê-se repentinamente preso e sujeito à maior humilhação possível: é o cão de estimação de um oficial menor nazi. Disse atrás cão de estimação porque é mesmo isso que passa a ser, com coleira e tudo. E tudo fará para salvar a família, submeter-se-á a todas as humilhações. No final nem sequer isso consegue: assistirá à sua partida para o forno crematório enquanto, acorrentado e de coleira, toca violino à sua passagem. De todas as cenas angustiantes que já vi, esta é uma delas: como avaliar a impotência de alguém que nem sequer se revolta, que não grita nem esperneia, mas que fica ali, na obediência servil, a tocar violino?

Esta cena lembrou-me outro filme, Sophie's Choice, aquela parte em que um nazi a obriga à escolha impossível, impensável. Sofia não poderá sobreviver à sua escolha forçada nem ao horror do que se segue.

 

Adam sobrevive a tudo e até salvará alguém, também internado nessa clínica em pleno deserto, mas terão de ver o filme. Ironia na maior tragédia: só Adam o poderia ter salvo, mostrar-lhe a sua verdadeira identidade. E a difícil fase da confiança, ultrapassar o medo.Adam podia entendê-lo, já estivera lá.

Disse atrás sobrevive a tudo... Sobrevive fisicamente a tudo, mas nas cenas finais vemos como os seus olhos estão infinitamente tristes apesar de tranquilos.

 

Mais recentemente revi Shindler's List. Apesar de todo o horror do gheto, dos fuzilamentos, dos campos de concentração, tem uma tonalidade de esperança, do princípio ao fim. É um hino à capacidade humana de sobreviver, de manter a dignidade possível, de confiar na comunidade, da infinita gratidão. Angustia-nos e comove-nos, mas mantemos a esperança.

No Sophie's Choicee no Adam Resurrected não há qualquer esperança para os protagonistas, qualquer. Sofia antecipa o fim e Adam refugia-se numa vida solitária e tranquila.

 

Não era bem este tema que eu tinha programado para iniciar um novo ano neste rio às vezes calmo às vezes caudaloso, tinha pensado num tema mais ameno como o meu fascínio pelos filmes poéticos dos anos 60, como este que apanhei a meio hoje, por acaso, na TVC 2, To Kill a Mockingbird. Virá a seguir. Ainda estou sob o seu efeito hipnótico, absorvida na sua atmosfera... Já o tinha visto há muitos muitos anos e quase o tinha esquecido até dar com ele hoje...

 

 

 

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publicado às 23:21

Tudo está no nosso olhar

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 09.07.09

Out of Rosenheim (Café Bagdad). A chegada da mulher estrangeira ao Café Bagdad, de mala na mão, deixando um marido para trás. E ainda por cima a mala errada, com as roupas dele.

Os estranhos habitantes daquele motel ao lado do Café e das bombas de gasolina, perdidos naquele deserto. A começar pela dona do negócio, Brenda, uma mulher histérica e irascível.

A aproximação das duas mulheres que irão formar uma verdadeira equipa, depois de muitas atribulações. O contraste entre elas é aliás fabuloso. A mulher calma e afectuosa, por quem o pintor ficará desde logo fascinado, irá suavizar o clima geral do café, a começar pelo pó acumulado, pela desarrumação, pelo mau-humor.


Aqui são circunstâncias improváveis que trazem novas formas de ver a vida e de a viver. Tudo está no nosso olhar. Como olhamos o outro. E como olhamos a vida.


Há uma cena muito simples e muito poética, da mulher a correr atrás de um boomerang. E do pintor a olhá-la, hipnotizado. Irá conseguir pintá-la. E um dos quadros ficará a somar os dias até ela voltar.

Uma das cenas finais é absolutamente indizível: magnífica Marianne Sägebrecht! Toda a claridade e frescura naquele yes! E magnífico Jack Palance! Repararam naquele sorriso luminoso de Jack Palance?

 

 

 

Coincidências interessantes: Já aqui dediquei um post a um outro filme, igualmente num local isolado, no meio do nada, e com um café onde se servem refeições e umas bombas de gasolina: The Petrified Forest. Com cerca de 50 anos de diferença entre si, em ambos surgem dois viajantes, aparecidos do nada: no primeiro é um escritor-nómada, neste uma mulher que acaba de sair do carro ali mesmo, em plena estrada. Só que no primeiro é uma jovem amável e generosa que recebe o viajante e neste é uma mulher irascível e desconfiada que encara a recém-chegada. Mas tanto o viajante como a recém-chegada irão alterar de forma profunda e definitiva a vida dos que os acolhem. Bem, neste a alteração é muito mais abrangente: a recém-chegada terá uma influência benéfica em toda a gente, por assim dizer: a começar pela mulher com o tal péssimo feitio, passando pelos seus dois filhos, uma miúda que ainda anda à deriva e um rapaz que toca piano de forma obsessiva. Já para não falar do pintor, que vê nela, e de um relance, uma luminosidade e suavidade invulgares. Que por ela fica verdadeiramente fascinado. E que terá de a pintar e de a guardar consigo. Bem, e não fica por aqui: a sua energia e criativadade transformam aquele café para sempre, ficará tudo arrumado e a brilhar, e os viajantes, neste caso camionistas de longo curso, terão direito a espectáculo musical com números mágicos incluídos.

 

 

 

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publicado às 15:06

É sempre possível "volver"...

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 23.02.09

 

Este post é inspirado na Cerimónia dos Óscares 2009 e na estatueta que Penélope Cruz ganhou na categoria de Melhor Actriz Secundária. Porquê? Porque me comoveu a forma como a recebeu e como se lembrou do seu pueblo, do seu Realizador, Pedro Almodóvar, e acabou em espanhol...

Por Volver, é por Volver que hoje volto aqui. Volver é uma ideia tão poética... é nome de filme sobre mulheres e a sua capacidade de sobrevivência. E é talvez o papel de Penélope, até ver... e um dos melhores Pedro Almodóvar...

Na Cerimónia de ontem também houve poesia no ar. Sean Penn aproveitou aquele momento mágico, de óscar na mão, para lançaressa mensagem de confiança, e de esperança também. E quase no final lembrou o regresso do seu irmão Mickey Rourke. É também este o sentido de volver...

 

Podia pegar em Volver pelo seu lado hilariante, pela cumplicidade das mulheres: como uma delas protege a filha que lhe despachou o marido para o outro mundo e ambas saem incólumes; como outra delas, depois de despachar o respectivo, ainda se transforma em espírito que faz ginástica numa bicicleta estática; como outra delas vive de uma economia paralela de subsistência, improvisando um salão de cabeleireiro em casa; como várias delas ainda irão ganhar mais uns trocos, servindo a uma equipa de cine que ali foi filmar, os petiscos que trazem dos seus pueblos.

 

Podia pegar em Volver pelo seu lado social, as mulheres aqui unem-se para sobreviver: a uma vida sem perspectivas no pueblo de origem, onde voltam apenas para ir ao cemitério; à agressividade brutal dos homens; a uma dificuldade de se integrar profissionalmente na grande cidade, a trabalhos menores, a tudo o que as coloca numa posição precária. E como se unem, construindo na cidade hostil, pequenos pueblos, células vivas de suporte mútuo.

 

E podia pegar em  Volver pelo seu lado psicológico: esta mulher decide olhar para a frente, sem hesitações. Não hesita em proteger a filha. Não hesita em utilizar o eterno apaixonado, o dono do restaurante. Não hesita em esconder o corpo numa arca congeladora. Não hesita em aproveitar aquela oportunidade, para si e para as amigas, de poder ganhar uns trocos. E ainda terá de lidar com as surpresas da vida. É que o espírito está bem vivo e há-de aparecer-lhe na mala do carro. A forma como encara todas estas surpresas define-a como uma mulher que se cansou da subalternidade.

 

E podia olhar pelo ângulo poético: um pueblo igual a tantos outros, ao longo de uma estrada, casas de um lado e de outro, as idas anuais ao cemitério, velhas tias esquecidas em casas vazias, os petiscos que se levam e que se trazem, a demência que começa a condicionar a sua vida... o contraste com os subúrbios da grande cidade, os pequenos apartamentos, o balde e a esfregona ou o salão de cabeleireiro clandestino, uma equipa de filmagem esfomeada, um enterro improvisado no lugar preferido do marido a olhar o rio... O rio que já vai quase seco, como se verá...

 

Ainda não tinha aqui falado de Pedro Almodóvar, um dos meus preferidos. Comecei com Volver, mas ainda voltarei a este D. Quixote com outros, porque gostei de quase todos eles.

 

 

 

 

 

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publicado às 12:17

Sobreviver ao maior desamparo

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 24.04.08

 

Ballard e Spielberg = um filme mágico: O Império do Sol.

Ligam muito bem. É que Ballard entende a nossa época. E além de a entender, consegue traduzi-la para uma língua viva. E Spielberg entende Ballard e traduz essa língua viva, já em si tão sugestiva e visual, para planos e atmosferas que só ele consegue criar.

E quem, como eles, consegue falar dos dramas humanos mais horríveis com aquela frescura e clareza? Já o disse, há uma capacidade de ver a realidade, o olhar de um rapazinho. O adulto perdeu esta capacidade. De se extasiar. De abrir muito os olhos, de ficar de boca aberta. E de interrogar tudo, de tudo questionar.

J. G. Ballard ficou conhecido a nível mundial com este livro autobiográfico. Haverá outros. E todos a revelar a nossa época, para além das aparências, da ilusão. Em todos os seus livros há esta verdade para lá da superfície que só as crianças conseguem ver. O mais belo e o mais horrível. Só as crianças conseguem ver com olhos de ver a violência humana, a estupidez humana. A sua perversidade também.

Cenas dramáticas e poéticas:

O fascínio do miúdo pelos aviões: a sua presença sombreada no teto do quarto, as miniaturas na mão, às voltas na bicicleta, no jardim da casa.

A festa de máscaras, o avião abandonado, o grupo numeroso e ameaçador de soldados japoneses.

A casa deserta, a piscina vazia, a comida enlatada, a espera inútil pelos pais, as ruas desertas percorridas de bicicleta.

A fome, a sobrevivência no campo de prisioneiros, a luta por uma batata. As caminhadas dolorosas, a fome, a doença, a exaustão. E Jim sempre a tornar-se útil, sempre incansável.

A caminhada até esse estádio a céu aberto, no meio do nada, com objectos retirados das casas, carros misturados com mobília. Essa noite da morte da mulher, do casal que o acompanha desde o campo de prisioneiros. E a luz, o clarão no céu dessa bomba atómica que ilumina fantasmas…

O jovem aviador japonês que fica em terra porque o avião não pega, e com quem Jim descobre uma estranha cumplicidade… e que tentará desesperadamente salvar quando é atingido por engano.

A histeria no telhado do hospital, ao identificar os seus aviões bem conhecidos e amados. E o médico a obrigá-lo a declinar verbos em latim, para o acalmar.

O reencontro com os pais.

Jim é um rapazinho que quer salvar toda a gente. E que ficará com esta marca vitalícia: nunca mais poderá ver o mundo pelo olhar distraído do adulto.

 

Obs.: E daqui, de um outro lugar, a Xangai imutável e nostálgica que vemos no filme, na cena em que Jim se perde dos pais no meio da multidão.

 

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publicado às 12:53

Encontros felizes

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 31.03.08

 

Há uma coragem comovente, feridas difíceis de curar, um encontro mágico e amizades para toda a vida! A linguagem mais nobre, a lição mais poética, e tudo num cavalo… Seabiscuit.

Seabiscuit existiu. Inspirou muita gente simples. E todas as personagens da história. Um cavalo pequeno para as corridas, mas um campeão. Que terá comovido e mobilizado multidões na América. Nele viram tudo isso e muito mais. A sua própria esperança. O seu próprio ânimo e coragem.

Numa época cada vez mais distante dos sentimentos e emoções reais, dos afectos, da lealdade, da constância, do tempo medido de uma vida, Seabiscuit também é mágico por nos recordar tudo isso. E conseguir despertar esses sentimentos em cinema… essa magia já a pensávamos perdida nesses filmes dos anos 30, 40. Outra prova da sorte e de encontros felizes.

 

 

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publicado às 10:36

Steinbeck e John Ford

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 21.02.08

 

As Vinhas da Ira.A fotografia, aquele contraste a preto e branco, em planos impossivelmente poéticos e dramáticos… é o que retive da primeira parte do filme. A casa vazia, os campos abandonados, a seca…

Toda a viagem forçada rumo a oeste, a família deslocada na busca desesperada da sobrevivência… A dignidade humana, mesmo nas maiores privações e dificuldades.

E aquela mãe. A mãe que transforma a dor em força, que está, que permanece, que não desiste. A mãe que abraça, que conforta, que anima.

É todo o povo americano que aqui é lembrado por John Ford, todo o seu sofrimento e coragem. É um poema à dignidade de homens e mulheres que tudo perderam menos a sua humanidade.

É toda a atmosfera da Grande Depressão. Com aqueles planos, aqueles contrastes, que são simplesmente de tirar o fôlego. Como John Ford consegue aquela atmosfera a preto e branco… é um verdadeiro mistério.

 

 

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publicado às 15:53

The Terminal

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 04.01.08

Spielberg de novo com um olhar mais fresco e solto, quase o olhar desses primeiros anos, em que brinca com a câmara e connosco. Em que se debruça sobre a condição humana. Em que segue os passos de alguns mestres com o afecto de um aluno brilhante. Com o prazer de um rapazinho. É assim que eu o imagino atrás da câmara neste The Terminal.

Depois de várias peripécias e inúmeros obstáculos, começamos a ver o lado inventivo e criativo, o imenso manancial da nossa estranha espécie, condensado neste homem que se vê de repente como unacceptable.

De novo aqui dois mundos em confronto, o oficial, do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, da Segurança Interna,do outro o indivíduo e a sua própria sobrevivência. De um lado as imposições rígidas e acéfalas, do outro a criatividade, os neurónios a funcionar. De um lado a falta de sensibilidade e de empatia, do outro a capacidade de dar a volta à desgraça e ao azar.

Há mesmo duas cenas que exemplificam isto na perfeição. Logo no início, a entrevista verdadeiramente estúpida do burocrata do aeroporto. Aqui Navorski ainda não domina o inglês e utiliza as poucas palavras que sabe para responder às perguntas burocráticas, yes, New York, keep the change, Ramada Inn eos nomes de uma rua e de uma ponte. Verdadeiramente risível a completa ausência de comunicação nesta situação caricata. Aqui pensei em Chaplin, sobretudo quando o burocrata pega no seu lanche para exemplificar a situação no país de Navorski, a Krakozhia, e como isso o transformara num apátrida de um dia para o outro.

Outra, quando já o nosso Navorski vive neste terminal há uns meses e um outro passageiro, igualmente de um país de Leste e que por azar fez escala naquele aeroporto, vindo do Canadá, quer evitar que lhe confisquem os remédios para o seu pai doente. O nosso Navorski é chamado como tradutor. Mas como traduzir o desespero deste passageiro para burocratas que lhe querem ficar com os frascos? Como traduzir a vida de um pai amado para linguagem de impressos e de leis estúpidas? Como traduzir a própria vida de pessoas reais para mentes formatadas? Navorski consegue-o, depois de uma situação pungente, o passageiro a implorar de joelhos e a ser manietado pelos seguranças. Há uma luzinha numa falha linguística, de uma troca de palavras, de “pai” para “bode”. É que Navorski já aprendeu, nesta altura do campeonato, as minudências de mais uma lei estúpida: só são confiscados os remédios para pessoas, se forem para animais podem seguir. Há aqui um rasgo filosófico, quase nos lembra Camus… O passageiro vem agradecer ao nosso Navorski e aqui temos a humanidade inteira naquele abraço, a capacidade de empatia e de gratidão, de sacrifício também, porque Navorski viu aumentada a hostilidade do burocrata. Mas deu-lhe a volta! E isso também lhe dá dignidade e o respeito dos seus novos amigos. E estes novos amigos já são quase todos os funcionários do aeroporto e uma hospedeira de bordo por quem se apaixona.

Spielberg acaba por nos mostrar que a humanidade está para além das leis estúpidas, das fronteiras impostas, isto é, enquanto houver inteligência e criatividade, neurónios humanos vivos!

Nova Iorque representa uma assinatura de um saxofonista para o nosso Navorski, do seu amado jazz, e amado pelo seu amado pai. Ele faria o mesmo por mim, tinha dito à amiga. E pelo caminho tocou as vidas de muitas pessoas reais, as mesmas que se vêm despedir, que o acompanham até à porta. Como uma grande família. É impossível não ver Capra aqui a sorrir-nos…

I’m going home… diz o nosso Navorski já no yellow cab.

Em The Terminal vejo o verdadeiro cinema. Está lá o essencial. Misto documentário misto poema, linguagem metafórica e filosófica, diálogos depurados, inteligência, criatividade, humor. Vejo Chaplin, Jacques Tati, Capra, Wyler, John Ford… Vejo o grande amor ao cinema. E vejo a magia de Spielberg, a sua frescura dos tempos iniciais, o seu lado rapazinho a brincar com a câmara. Uma força da Natureza. Um talento único.

 

 

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publicado às 16:30


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